Um keynesiano pouco ortodoxo
| Autor(es): Paulo Totti, de Brasília |
| Valor Econômico - 27/08/2010 |
Nelson Barbosa tem 1,90 m e, durante a juventude, exibia seu porte atlético na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde foi campeão de remo pelo Vasco da Gama e pelo Flamengo, nas categorias "4 sem" e "2 sem" - quatro ou dois remadores, sem timoneiro. Aos 40 anos, é secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e chama a atenção nos bastidores do Planalto não exatamente pela posição proeminente que ocupa à mesa de qualquer reunião de que participe. São suas algumas das ideias que ajudaram o Brasil a superar a crise financeira internacional de 2008/2009. Levado a essas reuniões pelo ministro Guido Mantega, Nelson Henrique Barbosa Filho tornou-se conhecido de Dilma Rousseff, então chefe da Casa Civil, e do próprio presidente Lula, ao participar da equipe que formulou duas das iniciativas de maior sucesso no segundo mandato deste governo, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa, Minha Vida. Quando tentava encontrar um espaço na agenda para este "À Mesa com o Valor", Nelson fez curiosa revelação: "Na quinta, estou ocupado em São Paulo e, durante todo o dia seguinte, no Rio. Sexta à noite volto para Brasília". Sim. Nelson Barbosa é um carioca, funcionário do governo federal, que abandona o Rio na sexta à noite e vai passar o fim de semana em Brasília. A surpresa aumenta quando afirma: "Os voos para Brasília estão lotados na sexta-feira à noite. São funcionários federais de diversos escalões que voltam para casa depois de dias de trabalho fora. Vêm do Rio e de São Paulo". Nelson foi assessor de Guido Mantega no Ministério do Planejamento e no BNDES e, novamente convocado, está em Brasília desde 2007, com mulher e filho. Jussara, mestra em educação pela City University de Nova York, trabalha em Brasília num escritório que dá assistência a quem quer estudar nos Estados Unidos. E o filho, Henrique, de 5 anos, se alfabetiza em escola particular. "Aqui há muito espaço verde e isso é bom para crianças", diz. O jantar foi finalmente marcado para depois do expediente na Fazenda, às 10 da noite de uma terça-feira no Dom Francisco da Academia, restaurante brasiliense notável pela coleção de vinhos portugueses e pela qualidade do bacalhau servido ao lado da piscina de uma academia de tênis. Nélson foi frugal na pedida que abriu os trabalhos: salada especial, com muitas folhas e algum tomate, palmito e ovo cozido. O próprio Francisco sugeriu o restante de comer e também de beber. Bacalhau de postas finas, ao forno, com batatas, cebolas e pimentão, em companhia de arroz de brócolis e três marcas de perfumoso azeite grego. O primeiro vinho foi o Deu lá Deu, Alvarinho, 2006, um verde branco do norte de Portugal, suave e refrescante na acidez, com remoto aroma de abacaxi. A conversa começa com uma rememoração do repórter. Era 2005, auge da crise do mensalão. A militância do PT do Rio precisava de algo forte para recuperar a autoestima e as finanças, abaladas ambas pelas tropelias do momento. Promoveu-se um grande jantar a R$ 1 mil a cabeça e a recém-empossada ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, foi a convidada de honra da noite. Sentado longe dos holofotes e ao lado de Jussara, Nelson comentou: "Dilma deveria percorrer todas as mesas, sorrir, cumprimentar as pessoas". - Dilma já era sua candidata? - Percebia nela um potencial de candidata. Com o PAC, a candidatura se consolidou. - Surpreendeu que um discreto economista do BNDES tivesse a sensibilidade política de perceber que a candidata em potencial deveria interagir com os companheiros, sair pelo salão a distribuir simpatia. Há ironia no sorriso de Nelson: - Economista tem que saber muita matemática. Mas não basta. Tem, também, que saber de política. A ciência, aliás, se chama economia política... Conhecer história igualmente ajuda. Nelson Barbosa estudou no Colégio Princesa Isabel, na rua das Palmeiras, em Botafogo, e entrou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1988. Mas nunca fez política estudantil. "Fiz política mesmo. Lembro que, num domingo de 1989, fui do Arpoador ao Leblon, ida e volta, com um bandeirão vermelho e distribuindo panfletos no calçadão da praia: "Lula presidente". Não era filiado ao PT e até hoje não sou." Da graduação na UFRJ (1988/91) recorda-se da campanha pelo impeachment do presidente Fernando Collor (1991) e das aulas de Carlos Lessa: "Foi o meu melhor professor de economia brasileira. As aulas dele são um show". Outra grata recordação da universidade é a do convívio com Maria da Conceição Tavares, sua orientadora no mestrado. "Não pude ir à festa dos 80 anos da professora. Estávamos na reunião do FMI. Mantega e eu ligamos de Washington." O hoje também presidente do Conselho de Administração do Banco do Brasil lembra que, em 1994, seu último ano de mestrado, não perdia "as famosas reuniões" de economistas do PT. "Famosas porque só participava gente ilustre, o Edward Amadeo, o José Márcio Camargo. Todo mundo era do PT. Eu ficava só ouvindo." Torcedor do Vasco da Gama e simpatizante da São Clemente, escola de samba de Botafogo, Nelson vai com frequência ao Maracanã, mas só foi uma vez ao desfile da Marquês de Sapucaí, pois gosta mesmo é de blocos de rua. "Antes de virarem moda, de estarem em todas as esquinas do Rio, eu já saía em blocos, como o Simpatia É quase Amor e o Suvaco do Cristo." Brasília, de carnaval pouco estimulante, não é uma cidade estranha. "Um tio já falecido, Milton Sebastião Barbosa, mineiro de Andradas, era considerado o seresteiro de Brasília na época do Juscelino." O próprio Nelson, filho de engenheiro, morou em Brasília entre os 4 e os 7 anos. Já adulto, cursando mestrado, pensou em voltar à cidade como qualificado quadro da administração pública. Em 1994, fez concurso para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Banco Central e a Petrobras. Passou nos três e escolheu o Banco Central. Em 1997, estava no Departamento de Fiscalização Bancária do BC, quando fez concurso para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Aprovado, não chegou a assumir porque, simultaneamente, o aceitaram como bolsista na New School for Social Research de Nova York, "a escola americana mais heterodoxa". - Lá dedicam a Keynes mais do que duas horas por semestre? - Muito mais. Não só a John Maynard Keynes. A Karl Marx também. Escola de tradição bem crítica, com ênfase no estruturalismo. Acabou o doutorado em 2001 e ficou mais um ano porque Jussara fazia mestrado. Nesse ínterim, foi professor da New School e deu aulas particulares de matemática. "A grana era curta." Em 2003, a convite do professor José Carlos Miranda, seu colega na UFRJ e chefe da assessoria econômica do Ministério do Planejamento, foi conhecer o ministro Guido Mantega e colaborar na elaboração do Primeiro Plano Plurianual (PPA) do governo Lula. Ali já estavam as linhas mestras de programas sociais e de desenvolvimento que viriam a ser executadas somente no segundo mandato. Nelson não admite que o PPA tenha sido boicotado pela equipe do então ministro da Fazenda, Antônio Pallocci, mas essa, como ainda hoje circula em Brasília, teria sido a razão do seu inesperado regresso para o Rio e as aulas na UFRJ. Sobre o episódio, silencia. Na universidade dedicou-se à sua especialização: economia internacional e economia monetária. "Com a passagem pelo Planejamento, pelo BNDES, e agora na SPE, estou é fazendo um "pós-doc" (pós-doutorado) de Brasil. Um dia discuto o preço mínimo do trigo; em outro, moradia popular ou incentivo ao etanol." - Você é um carioca na equipe de um ministro ítalo-paulista. Como se sente? - A equipe de Mantega não é um "paulistério". Na Receita está o Otacílio Dantas Cartaxo, nordestino. Arno Augustin, gaúcho, no Tesouro. A mineira Adriana Queiroz de Carvalho, procuradora. Chefe de gabinete é o Luiz Eduardo Melin, carioca. Paulista e amigo de longa data do ministro é o Nelson Machado, secretário executivo. A gestão é profissional. - Às vezes, Mantega se engana e escolhe alguém lá do Ceará para secretária da Receita... Causa algum constrangimento a referência a Lina Vieira, demitida no ano passado após aplicar multa à Petrobras por uso de controvertido expediente de planejamento tributário. Nelson apenas corrige o repórter: - Ela não é cearense. É mineira de Belo Horizonte e trabalhava em Natal. Não há mais vinho nas taças e "Dom" Francisco sugere outro branco verde português, desta vez o Muros Antigos Escolha, mescla dos varietais Alvarinho e Loureiro. São quatro à mesa e todos concordariam com quem postou na internet a seguinte associação de virtudes: "elegância, acidez cristalina e final risonho". - Você mantém a forma física? - Quando a rotina deixa, faço musculação, corrida. Há uma academia do lado de casa. - Dá para correr lá? - Corro na esteira. Brasília tem espaços abertos, mas é inimiga do pedestre. Tem que correr no meio da rua. No fim de semana, o "Eixão" fecha e dá para correr lá. Fora isso, corre-se no "Eixinho", carros com descarga aberta, barulhão. - Não está na hora de pensar no financiamento a longo prazo da nossa economia? Nelson fica mais sério. Do outro lado da mesa aparece o economista Barbosa. - O investimento necessário requer um volume de financiamento que testa o limite da estrutura atual. Na crise, a solução de curto prazo foi encontrada via BNDES. Mas foi uma emergência. O ministro Mantega já declarou que quer mais mercado no financiamento de longo prazo e menos recursos públicos. Estamos preparando propostas nessa direção, que serão apresentadas ao presidente Lula. Mas tudo isso tem a ver com os juros. Não há mercado de longo prazo com juros muito mais altos do que os praticados por países com a mesma característica do Brasil. Tem que haver rentabilidade e atratividade. - E quando veremos essa coisa maravilhosa? - Penso que o próximo governo fará a transição para uma taxa real a níveis civilizados. Neste governo a taxa real baixou de 16% para 6%. Já se conseguiu o controle da inflação com crescimento, o rigor fiscal com distribuição de renda e o câmbio flutuante com menor vulnerabilidade externa, graças à quantidade de reservas. É o tripé da atual política econômica. O arcabouço é o mesmo do governo anterior. O direcionamento é que mudou, com os resultados conhecidos. - Tem gente por aí dizendo que pode mais... - E tem gente que não diz. Faz mais... - Delfim Netto entende de economia, de política e de história. O que você acha dele? - Delfim é economista em todos os sentidos. Ele tem a vantagem de ter tido uma formação de antes dos anos 60, pré-idade média da economia, quando começou a se impor a ideologia do "mercado resolve tudo". Aliás, o líder liberal, Milton Friedman, sabia demais. Seus alunos é que apreenderam só uma coisa. - O que você acha dos últimos ataques ao BNDES e à Petrobras? - Ambos existem, graças a Deus. O BNDES deu rápida resposta à crise, atuou para manter os investimentos do governo e da atividade privada. Por isso o país não caiu na recessão. - E os grandes créditos para frigoríficos? - O Luciano [Coutinho, presidente do BNDES] já esclareceu em entrevista. Faz sentido fortalecer os produtores nacionais de alimentos para aumentar sua competitividade internacional. Essa operação foi feita a taxas de mercado, com a colocação de debêntures do BNDESPar. Mais: não faltou dinheiro no BNDES para pequenas e médias empresas. - E os ataques à Petrobras? - A Petrobras é vital para que os recursos do petróleo revertam em benefício do país como um todo. Ela precisa aumentar seu capital. Não vou falar mais sobre isso porque pode envolver o preço das ações de uma companhia aberta. - Você está proibido de falar a favor, por causa do tal período de silêncio. Mas eu posso falar contra. Não há uma contradição da legislação? - A legislação é feita para proteger o investidor, evitar manipulações... Quem um dia foi aprovado em concurso para fiscal da CVM não quer discutir em público as regras do mercado de capitais. E é melhor mudar o rumo da conversa, enquanto já se está à sobremesa: creme de mamão com cassis, tortas de castanha com sorvete e musse de chocolate. - Quais são os desafios do próximo governo? - Cria-se no Brasil uma nova e exigente classe média. Melhorou a distribuição de renda, melhorou o salário mínimo, o acesso ao crédito e à moradia. Agora temos que entrar nas questões mais difíceis, atender a uma crescente demanda de serviços públicos universais de qualidade, tipo bairro mais seguro, hospital melhor, escola melhor. É bom, porque isso gera frentes internas de crescimento. Socialmente é por aí. - Universidade e governo, qual é a diferença? - Na academia briga-se por detalhes, você procura as divergências. No governo, buscam-se convergências. Tem que alocar prioridades dentro de um orçamento limitado. Recentemente, provamos que se poderia crescer mais e isso era sustentável. Mas é diferente de dizer que o Brasil pode crescer a qualquer taxa. Claro que existe limite para o crescimento. - Para alguns keynesianos não há limite. - Sou keynesiano, mas não pertenço à Igreja da Ressurreição Keynesiana, adepta do joga dinheiro, joga dinheiro, que tudo vai dar certo. Keynes não achava isso, mas o pessoal às vezes se empolga... No Brasil há também a Igreja da Microeconomia dos Últimos Dias. Ela acha que o Bolsa Família é ruim porque estimularia o pobre a não trabalhar. Essa seita não vê o impacto macroeconômico, não aceita que por aí o pobre entra no mercado. A discussão é velha, do século XVI, quando se votou a English Poor Law, a lei dos pobres da Inglaterra. O debate sobre o estado do bem-estar social tem esses extremos ideológicos. Você só pode se dar ao luxo de ter opiniões tão extremas se estiver na academia ou se for um desses economistas de banco ao qual ninguém presta atenção. No governo, o que você faz tem implicações na vida das pessoas. Por isso, hoje, o maior economista do Brasil se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Ele sempre pergunta: "Em que isso vai beneficiar o trabalhador?" - E qual é o produto potencial? 3,5%? - Colocamos no PAC e se revelou correto: média de 5% de crescimento de 2007 a 2010. E é um crescimento com crédito, melhor distribuição de renda, inclusão das pessoas. Agora, é manter as conquistas e avançar mais na área da saúde pública universal, da tecnologia, do ambiente. A questão ambiental vai dominar a pauta da política econômica. - O governo não descuidou da questão ambiental em favor do crescimento? - Discordo. As obras do PAC passam por rigoroso processo de análise, modificações e licença ambiental. Belo Monte é um exemplo. Não haverá outra Itaipu, Tucuruí ou Balbina. - Você estará no governo até 31 de dezembro. E depois? - Vamos ver quando chegar o 1º de janeiro. Em outubro, o povo vai eleger o novo governo. Especular agora é inadequado e pretensioso. |

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