Dignidade à prova
Autor(es): Eduardo Maluf
O Estado de S. Paulo - 16/03/2012
A renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF e do Comitê Organizador Local abriu de vez espaço para que a cúpula do País discuta assuntos da Copa de 2014 diretamente com a Fifa, sem interlocutores ou intermediários. Dilma Rousseff recebe hoje Joseph Blatter, o responsável por tentar amenizar o clima turbulento entre o governo e a entidade, acirrado depois das pisadas de bola de Jérôme Valcke. A presidente, claro, não quer briga e deve mesmo aceitar as pazes (nem poderia ser diferente), mas não pode, de jeito nenhum, ceder aos caprichos da Fifa.
Desde que os preparativos para a organização do Mundial tiveram início, começaram as bolas divididas e os desentendimentos. Idosos terão direito a pagar metade do preço pelos ingressos, bebidas alcoólicas serão liberadas nos estádios? O Brasil é muito maior que a Fifa, um País em grande desenvolvimento econômico há anos, cada vez mais influente mundialmente, apesar de todos os seus problemas. As leis daqui têm de falar mais alto do que os desejos da instituição com sede em Zurique.
A Fifa já lucra muito com o Mundial sem ter quase nenhum trabalho, a não ser o de supervisionar as obras ou dar puxões de orelha. O maior esforço é embolsar todo o dinheiro resultante desse megaevento. Acatar as normas da nação organizadora é o mínimo, por mais que tenha compromissos com patrocinadores e investidores. É muito mais lógico e sensato adaptar cláusulas dos contratos com as empresas - mesmo que isso represente um pouco de queda na abundante receita financeira - do que determinar mudanças em leis estabelecidas há tempos num país.
É óbvio que o candidato a sede de uma Copa tem de aceitar as regras do jogo. Mas isso não significa abaixar a cabeça em qualquer circunstância, como fez a África do Sul em 2010. Já bastam as inúmeras exigências impostas para a construção e modernização dos estádios, que vão custar caro para todos nós.
Manter posição de altivez é o que se espera de Dilma e Aldo Rebelo. Até agora, a presidente tem mostrado pulso firme. Foi, sem dúvida, uma das responsáveis pela queda de Teixeira, algo que parecia impossível até um ano atrás. Retirou o apoio dado por Lula ao ex-mandatário da CBF, já atordoado pelas denúncias de corrupção, e o enfraqueceu ainda mais a ponto de cair definitivamente.
Na prática, a renúncia de Teixeira não altera em quase nada o processo de organização do Mundial. E isso pouco importa. O mais importante é mudar a estrutura arcaica do futebol brasileiro no médio prazo. Por enquanto, não temos motivos para carregar otimismo. A começar pelo discurso de José Maria Marin, que fala em continuísmo. O problema maior, no entanto, é a falta de novos nomes nos quadros diretivos de clubes e federações. Precisamos de renovação urgente na cartolagem, como tem ocorrido na Europa com Beckenbauer, Platini e Leonardo, não apenas ex-jogadores famosos, mas profissionais capacitados e cidadãos respeitados.
O Estado de S. Paulo - 16/03/2012
A renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF e do Comitê Organizador Local abriu de vez espaço para que a cúpula do País discuta assuntos da Copa de 2014 diretamente com a Fifa, sem interlocutores ou intermediários. Dilma Rousseff recebe hoje Joseph Blatter, o responsável por tentar amenizar o clima turbulento entre o governo e a entidade, acirrado depois das pisadas de bola de Jérôme Valcke. A presidente, claro, não quer briga e deve mesmo aceitar as pazes (nem poderia ser diferente), mas não pode, de jeito nenhum, ceder aos caprichos da Fifa.
Desde que os preparativos para a organização do Mundial tiveram início, começaram as bolas divididas e os desentendimentos. Idosos terão direito a pagar metade do preço pelos ingressos, bebidas alcoólicas serão liberadas nos estádios? O Brasil é muito maior que a Fifa, um País em grande desenvolvimento econômico há anos, cada vez mais influente mundialmente, apesar de todos os seus problemas. As leis daqui têm de falar mais alto do que os desejos da instituição com sede em Zurique.
A Fifa já lucra muito com o Mundial sem ter quase nenhum trabalho, a não ser o de supervisionar as obras ou dar puxões de orelha. O maior esforço é embolsar todo o dinheiro resultante desse megaevento. Acatar as normas da nação organizadora é o mínimo, por mais que tenha compromissos com patrocinadores e investidores. É muito mais lógico e sensato adaptar cláusulas dos contratos com as empresas - mesmo que isso represente um pouco de queda na abundante receita financeira - do que determinar mudanças em leis estabelecidas há tempos num país.
É óbvio que o candidato a sede de uma Copa tem de aceitar as regras do jogo. Mas isso não significa abaixar a cabeça em qualquer circunstância, como fez a África do Sul em 2010. Já bastam as inúmeras exigências impostas para a construção e modernização dos estádios, que vão custar caro para todos nós.
Manter posição de altivez é o que se espera de Dilma e Aldo Rebelo. Até agora, a presidente tem mostrado pulso firme. Foi, sem dúvida, uma das responsáveis pela queda de Teixeira, algo que parecia impossível até um ano atrás. Retirou o apoio dado por Lula ao ex-mandatário da CBF, já atordoado pelas denúncias de corrupção, e o enfraqueceu ainda mais a ponto de cair definitivamente.
Na prática, a renúncia de Teixeira não altera em quase nada o processo de organização do Mundial. E isso pouco importa. O mais importante é mudar a estrutura arcaica do futebol brasileiro no médio prazo. Por enquanto, não temos motivos para carregar otimismo. A começar pelo discurso de José Maria Marin, que fala em continuísmo. O problema maior, no entanto, é a falta de novos nomes nos quadros diretivos de clubes e federações. Precisamos de renovação urgente na cartolagem, como tem ocorrido na Europa com Beckenbauer, Platini e Leonardo, não apenas ex-jogadores famosos, mas profissionais capacitados e cidadãos respeitados.

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